O Trabalho
Acabei há bocado de assistir ao Campeonato da Língua Portuguesa 2008. Uma coisa muito interessante que eu descobri através dele, foi que a palavra "trabalho" vem do latim "tripalium", que era nada mais nada menos que um instrumento de tortura!O blogger . Uma análise mais profunda dessa transição linguística pode ser encontrada no artigo de J. Cary Davis, "Trabaculu » Trabajo" the Case for and against.
Mas a análise que eu queria fazer desta descoberta tem mais a ver com uma visão sobre a qual eu já tinha escrito antes: que o trabalho é percepcionado de uma forma completamente aversa ao que deveria ser. Com um nome desses, já não me admira!
Wal Rodrigues comenta o tema em Trabalho e Tédio, indicando que o trabalho é considerado algo tedioso, que a maior parte das pessoas o fazem apenas para garantir a sobrevivência. Chega até a notar que existem "(...) aqueles seletivos, dificeis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o trabalho mesmo não for a maior de todas as rendas. A esta rara especie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero (...)"
Mas fica-se por aí. Na verdade, ele estava na mesma linha de raciocínio que desenvolvi no artigo acima referido, e se tivesse analisado mais em porenor, acabaria provavelmente por chegar à mesma conclusão: que nem todo o trabalho "dignifica o homem". Especificamente, que o trabalho repetitivo e mecânico acaba por não ter o mesmo potencial que o trabalho criativo tem de dar prazer à mente humana, sendo até "disdignificante". Como veremos a seguir, essa visão já foi a percepção generalizada do trabalho.
Angelo Peres afirma em O Homem, o Trabalho e o Mundo do Trabalho:
"Só o homem trabalha, de todas as espécies animais. Porém, por outro lado, alguns povos da Antigüidade tinham o trabalho como algo impuro, indigno e desprezível. O trabalho não era uma atividade digna do homem livre. Cabia aos escravos as tarefas diárias, ou melhor, o trabalho."
Como já foi notado, cada vez mais o trabalho mecânico é executado por máquinas, e robots, o que faz todo o sentido dada a designação de "mecânico". E já que estamos numa de etimologia, note-se já agora que a própria palavra robot vem do checo "robota", que significa "trabalho forçado".
Eu acredito que dentro de algumas décadas, os humanos não terão que se submeter a tarefas enfadonhas e repetitivas, sendo estas executadas por máquinas (robots e computadores). Dessa forma, todos nós teremos a possibilidade de sermos esses "seletivos" de que Rodrigues fala, dedicando-nos a tarefas criativas e inventivas, dignas da nossa imaginação, curiosidade e criatividade -- precisamente as características que fazem de nós Humanos.
Mas por agora, acho que se pode começar por distinguir essas duas variantes de trabalho com termos diferentes, para no mínimo diminuir a confusão a respeito; deixemos "trabalho", esse termo de terrível origem, para designar as tarefas mecânicas, e chamemos algo diferente às tarefas criativas. "Emprego" não, pois indica pagamento, o que não é necessário nem sequer desejável quando se trabalha por gosto, como aliás Mark Twain inteligentemente demonstra no episódio de Tom Sawyer em que este faz com que os amigos pintem a cerca por ele, ao convencê-los que se tratava de algo agradável, e um privilégio.
Talvez "labor" possa ser usado como sinónimo para referir-se a trabalho "humano", mas sinceramente eu agora tenho medo das origens das palavras... nem vou investigar a etimologia desta. Ao invés disso, passo a batata quente ao leitor: aceito sugestões nos comentários! Actualizarei o post com a melhor sugestão. ;-)


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