Sunday, April 13, 2008

O Trabalho

(que título mais seco… vou ter que pensar nalguma coisa melhor depois)

Acabei há bocado de assistir ao Campeonato da Língua Portuguesa 2008. Uma coisa muito interessante que eu descobri através dele, foi que a palavra “trabalho” vem do latim “tripalium“, que era nada mais nada menos que um instrumento de tortura!

O blogger . Uma análise mais profunda dessa transição linguística pode ser encontrada no artigo de J. Cary Davis, “Trabaculu » Trabajo” the Case for and against.

Mas a análise que eu queria fazer desta descoberta tem mais a ver com uma visão sobre a qual eu já tinha escrito antes: que o trabalho é percepcionado de uma forma completamente aversa ao que deveria ser. Com um nome desses, já não me admira!

Wal Rodrigues comenta o tema em Trabalho e Tédio, indicando que o trabalho é considerado algo tedioso, que a maior parte das pessoas o fazem apenas para garantir a sobrevivência. Chega até a notar que existem “(…) aqueles seletivos, dificeis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o trabalho mesmo não for a maior de todas as rendas. A esta rara especie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero (…)”

Mas fica-se por aí. Na verdade, ele estava na mesma linha de raciocínio que desenvolvi no artigo acima referido, e se tivesse analisado mais em porenor, acabaria provavelmente por chegar à mesma conclusão: que nem todo o trabalho “dignifica o homem”. Especificamente, que o trabalho repetitivo e mecânico acaba por não ter o mesmo potencial que o trabalho criativo tem de dar prazer à mente humana, sendo até “disdignificante”. Como veremos a seguir, essa visão já foi a percepção generalizada do trabalho.

Angelo Peres afirma em O Homem, o Trabalho e o Mundo do Trabalho:

Só o homem trabalha, de todas as espécies animais. Porém, por outro lado, alguns povos da Antigüidade tinham o trabalho como algo impuro, indigno e desprezível. O trabalho não era uma atividade digna do homem livre. Cabia aos escravos as tarefas diárias, ou melhor, o trabalho.

Como já foi notado, cada vez mais o trabalho mecânico é executado por máquinas, e robots, o que faz todo o sentido dada a designação de “mecânico”. E já que estamos numa de etimologia, note-se já agora que a própria palavra robot vem do checo “robota”, que significa “trabalho forçado”.

Eu acredito que dentro de algumas décadas, os humanos não terão que se submeter a tarefas enfadonhas e repetitivas, sendo estas executadas por máquinas (robots e computadores). Dessa forma, todos nós teremos a possibilidade de sermos esses “seletivos” de que Rodrigues fala, dedicando-nos a tarefas criativas e inventivas, dignas da nossa imaginação, curiosidade e criatividade — precisamente as características que fazem de nós Humanos.

Mas por agora, acho que se pode começar por distinguir essas duas variantes de trabalho com termos diferentes, para no mínimo diminuir a confusão a respeito; deixemos “trabalho”, esse termo de terrível origem, para designar as tarefas mecânicas, e chamemos algo diferente às tarefas criativas. “Emprego” não, pois indica pagamento, o que não é necessário nem sequer desejável quando se trabalha por gosto, como aliás Mark Twain inteligentemente demonstra no episódio de Tom Sawyer em que este faz com que os amigos pintem a cerca por ele, ao convencê-los que se tratava de algo agradável, e um privilégio.

Talvez “labor” possa ser usado como sinónimo para referir-se a trabalho “humano”, mas sinceramente eu agora tenho medo das origens das palavras… nem vou investigar a etimologia desta. Ao invés disso, passo a batata quente ao leitor: aceito sugestões nos comentários! Actualizarei o post com a melhor sugestão. ;-)

[Crédito da imagem: Yann Minh]
Posted by Waldir Pimenta in 22:55:32 | Permalink | No Comments »