Monday, March 12, 2007

A Língua Canibal

O “site” do nosso Presidente dá lugar de honra à entrevista que ele deu ao “ABC”.

Também a primeira audiência oficial foi dada à Espanha. Felipe de Borbón, claramente comovido, foi generoso: “Vim oferecer todo o apoio da Espanha em tudo o que seja significativo para as relações bilaterais”.

Ora deixemo-nos cá ver – já que estamos obviamente tramados com os espanhóis – em que é que o moço nos poderá ajudar.

O maior obstáculo continua a ser a língua. O castelhano, como se sabe, é uma língua com muitos defeitos – sobretudo para quem fala português – e quanto mais cedo começarmos a corrigi-la, melhor para o entendimento peninsular. A solução é um acordo linguístico entre os dois países.

A mania mais irritante dos espanhóis tem a ver com a tonicidade: como se já não bastasse o gin ser Larios, temos também de levar com água tónica La Casera?

Com as palavras acontece o mesmo. Quando são iguais, eles arranjam maneira de as tornar irreconhecíveis.
Começando logo com o Professor Cavaco Silva, veja-se como pronunciam “canibal” como quem diz “Aníbal”. Não está certo. Em vez de rimar “atmosfera” com “esfera”, rimam-na com “fósfora”: “atmósfera”.

É ridículo.

É inaceitável. Como podem eles dizer “terapia” a rimar com “prosápia”; “atrofia” a rimar com “bófia”; “fobia” a rimar com “sobe-a” e, em vez de “herói”, “héroe”?

Até pronunciam “cameraman” como se fosse uma parte do abdómen: “camerámen”. Nem à traqueia fica bem soar a pum (“tráquea”). Demonstra falta de nível dizer “nível” como se fosse uma marca de velas fabricadas em Niza. Um imbecil perde estupidez essencial se for um “imbecil”. Só falta dizerem “crocódilo”.

A democracia já é suficientemente barulhenta, escusando de ser gritaria de “democrácia”. Em contrapartida, a burocracia em português pouco perderia em soar mais crassa e poderia passar a ser “burocrácia” e “burócrata”. Aqui entramos nas concessões que nós portugueses teremos de fazer se quisermos tornar a língua castelhana mais civilizada.

Podemos ceder, por exemplo, dizendo ”estereotipo” em vez de “estereótipo”, que, muito francamente, soa a espanholada. Eles que passem a dizer “hemorragia” em vez do horrendo “hemorrágia” e nós, atendendo ao inglês, poderemos dizer “futebol”com tónica no “foot”. No mesmo pé, faz todo o sentido “ortopédia” em vez de “ortopedia”. Podemos até fingir que dizemos “batraquio” e, com grande sacrifício, passar a dizer “batráquio”. Se eles abandonarem, de uma vez por todas, o vício de dizer “teléfono”, “crisantémo”, “mediócre”, “textíl”, “misíl” e “epidémia”, nós talvez possamos considerar dizer, por exemplo, “leucémia”, “impár”, “rúbrica”, “taquicárdia” e até “psicópata” para afastar, de uma vez por todas, a imagem da pata tresloucada.

Outra área em que se deverá chegar a acordo é a dos géneros. Os castelhanos têm uma enorme dificuldade em atribuir o sexo correcto às palavras e isso tem de acabar. Faz algum sentido tornar o sal, tão masculino, em menina? Mas é “la sal” que os espanhóis dizem. E quem diz tal coisa também lhe sai da boca fora monstruosidades como “la postal”, “la nariz”, “la sangre”, “la masacre” ou “la leche”. O que é que se há-de fazer? É o “la costumbre” deles.

Outro problema terrível que têm é com as palavras acabadas em “agem”, às quais reagem atirando-as lunaticamente para o masculino. É “el embalage” para aqui, “el masage” e “el maquillage” para ali e é preciso “el corage” para suportar o ultrage de “el embalage”, “el viagem” e “el paisage”. Dirão que é aqui que os portugueses podem ceder – passando a dizer “o hospedagem”, “o aprendizagem” e outros dislates – porque também franceses e italianos consideram masculinas quase todas estas palavras. Paciência. Estão todos tragicamente enganados, excepto no pajem. O resto é absolutamente feminino.

Como então negociar com os espanhóis para eles deixarem de dizer, escandalosamente, “el ponte”, “la miel”, “el dolor”, “la lumbre” e, em vez da valsa, “el vals”? Nalgumas transexualidades teremos de ceder. Talvez possamos prescindir da masculinidade de algumas palavritas e passar a dizer “a silicone”, “a ênfase”, “a ioga” e “a hamburguesa” se eles desistirem de aleivosias como “el pétalo” e “el análisis”. Como prova de boa vontade, até podemos ceder na zona tórrida das palavras acabadas em “agem” e passar a dizer “o homenagem”.
Ou pensando bem, talvez não. Se calhar, este desentendimento tem as suas vantagens multisseculares. Quem sabe? Uma coisa é certa: se o castelhano não tem cura, a culpa não é nossa.

texto original: A Língua Canibal
por Miguel Esteves Cardoso in Como quem diz, no Expresso de 18 Março de 2006

Posted by Waldir Pimenta in 14:17:19
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